Estendeu-se, a mão.
O impossível é de quem descrê milagres.
Para fora da janela ou adentro do vento, a mão. Uma côdea de afeto!,
faltava gritar.
Escusava palavra.
Muda,
sob a ânsia das tempestades, a mão continuava estendida, cansando o braço, cansando o tempo, cansando outras mãos (doutros corpos, atrás doutras janelas), que em determinadas épocas se tinham empenhado também no vão da esperança e já conheciam
o mau êxito.
Rogo maior, sua persistência.
E calado, o berro:
O impossível é de quem descrê milagres! Uma côdea de afeto, uma côdea de afeto!
Que diabos!, exclamavam as vizinhas de janela diante do membro exposto a
sol e chuva.
Não te cansas? Dorme! Infeliz.
Cabe perguntar quão felizes eram estas, constantemente incomodadas com a mão que sequer lhes dirigia palavra. Esclareceu uma, então: Ouve, se te alertamos
inútil é a espera,
é que já passamos pelo que passas. Ou te parece, somos idiotas?, não haveríamos também tentado Uma côdea de afeto, uma côdea de afeto?
Inútil é a espera,
convém que te poupes.
Nada.
A mão continuava estendida, a despeito do que falassem; esperando dalgum lugar obscuro o milagre.
Havia de pousar um alento, pássaro, uma flor tresmalhada.
De fato, um pássaro, talvez cria das vizinhas de janela,
fez-se amigo
para depois brindar-lhe a caca.
E como dizendo Olha o que encontrei, atraiu companheiros para a festa, uma orgia de merda,
que transformou a palma da mão, antes alva, em latrina.
Assistiram ao espetáculo todas as outras mãos, atrás das janelas, protegendo-se do vento, do sol, da chuva, das flores, dos pássaros;
das côdeas de milagres.
Primeiro comportaram-se como mães, Meu filho, não te avisei? Depois abandonaram a cerimônia, que de mães não tinham nada.
ha ha ha ha
Riam-se
ha ha ha ha
vitoriosas sobre a mão que esperançara.
Tu te achavas melhor?,
Vê-se logo, era disso que precisavas.
Recompuseram-se, enfim.
Vamos, entremos, já é tarde.
(Pensavam)
Tarde, e o espetáculo
acabado.
Precisa de banho, entendeu finalmente que bobagem é Uma côdea de afeto, uma côdea de afeto. Nada se há de encontrar aqui, sereno,
ventre do vento.
A mão, contudo, quando já se retiravam todos (não carecia presenciar até o fim a desgraça alheia), atroou, desta vez de verdade:
O impossível é de quem descrê milagres.
E o eco retumbou em cada casa
O impossível é de quem, o impossível é de, o impossível é, o impossível, impossível,
o impossível
é de quem descrê milagres.
Diante do brado inaudito,
até Deus concordou,
e da tempestade outrora obstáculo
criou a água da dignidade.
Ficaram atrás dos vidros, paralisadas, assistindo ao espetáculo que pensavam terminado,
à depuração daquela, Que diabos!
Então não sai daí nunca, comentou uma das centenas de mãos vizinhas, Verdade, retrucou outra, longe, conformada, Mas se até chovendo está, Talvez seja sinal dos deuses, Chuva nunca foi um bom sinal, Merda tampouco, Agora é,
e prosseguiram com a conversa, timoratas,
quando rugiu voz mais grave:
Idiotas, ficarão paradas?
Quando se estendeu afora,
a mão talvez julgasse Uma côdea de afeto
fruto milagroso
e, ciente de que milagres não acontecem todo dia, ainda assim o esperava.
Estendeu-se, a mão, ao
impossível.
E o impossível é o impassível de milagre.
Vieram em noite tépida, as mãos vizinhas, o serrote amparado pelos braços, e esquartejaram a malcriada.
Não houvesse possibilidade de esta levantar, do além, e resistir à espera de
alento, pássaro ou flor tresmalhada,
talvez não recebesse fim tão cruel (os mil pedaços), talvez se conservasse inteira, esborrachada no cinza.
Mas teimosa do jeito que,
uma barata,
continuaria rogando, calada, por carinho.
Termina assim, maldita. O impossível é para os como tu, que lutam por milagres.