diana de hollanda



~ 11.7.06

Viver e inventar. Eu tentei. Devo ter tentado. Inventar. Não é a palavra
certa. Tampouco viver. Não importa. Eu tentei. Enquanto dentro de mim a fera da severidade zanzava para cima e para baixo, rugindo, rasgando, rapinando. Eu fazia isso. E completamente sozinho, bem escondido, fingia de palhaço, sozinho, hora após hora, imóvel, geralmente de pé, embasbacado, gemendo. Certo, gemer. Não conseguia brincar. Eu girava até ficar tonto, batia palmas, corria, gritava, me via ganhando, me via perdendo, comemorando, lamentando. Então de repente me atirava sobre os brinquedos, se houvesse algum, ou sobre uma criança, para transformar sua alegria em lamentos, ou fugia, me escondia. Os adultos me perseguiam, os justos, me pegavam, me batiam, corriam atrás de mim até que eu voltasse para o meio, para o jogo, a diversão. Pois eu já sofria das agruras da severidade. Esta tem sido a minha
doença. Outros nascem sifilíticos, eu nasci grave. E gravemente lutei para não ser mais grave, para viver, inventar, eu sei o que quero dizer. Mas a cada nova tentativa eu perdia a cabeça, corria para as sombras como para um lugar seguro, para o colo dele que não pode nem viver nem agüentar a visão de alguém vivendo. Eu digo viver sem saber o que é isso. Eu tentei viver sem saber o que estava tentando. Talvez eu tenha vivido, afinal, sem saber. Por que será que estou falando disso. Ah sim, para aliviar o tédio. Viver e causar a vida. Não há por que condenar as palavras, elas não são mais ordinárias do que aquilo que querem vender. Depois do fiasco, o consolo, o repouso, eu começava de novo, tentar e viver, causar a vida, ser um outro, em mim mesmo, em um outro. Isso tudo é tão falso. Não há tempo para explicar agora. Eu começava de novo. Mas pouco a pouco com um novo objetivo, não mais para ter sucesso, mas para falhar. Nuance. O que eu buscava, quando me debatia para fora do meu buraco, e então através do ar penetrante em direção a uma dádiva inacessível, era o arrebatamento da vertigem, o deixar fluir, a queda, o abismo, a recaída na escuridão, no nada, na seriedade, em casa, nele que sempre me esperava, que precisava de mim e de quem eu precisava, que me pegou em seus braços e me disse que ficasse com ele sempre, que me deu este lugar e tomou conta de mim, que sofreu sempre que o deixei, que muitas vezes fiz sofrer e raramente satisfiz, que nunca vi. Aí vou eu perdendo a calma novamente. Minha preocupação não é comigo, mas com um outro que está muito abaixo de mim e que eu tento invejar, e cujas crassas aventuras posso contar, afinal, não sei como. De mim mesmo nunca pude contar nada, tampouco viver, ou contar algo sobre outras pessoas. Como poderia, que nunca tentei? Mostrar-me agora, a ponto de desaparecer, ao mesmo tempo que o estranho, e pela mesma dádiva, isso não seria uma última gota qualquer. Viver, então, o tempo suficiente para sentir, por trás das minhas pálpebras fechadas, outros olhos se fecharem. Que final.

trecho de Malone Morre, Samuel Beckett

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