Desde o ano passado ando em companhia do Marquês de Sade.
Está prevista para junho/julho a peça que estou dirigindo (título ainda indefinido), a partir de seus textos.
Segue trecho de uma de suas biografias,
Sade - O santo diabólico (retirado do diário de
Anne-Prospère - cunhada do Marquês - e transcrito, com a devida pitadinha lírica, pelo autor,
Guy Endore para seu livro):
O Marquês: O próprio Deus criou o incesto!
A Marquesa: Já ouvi o bastante.
O Marquês: Quando existia apenas uma família na terra, a de Adão, nenhuma mulher poderia ficar grávida, sem ser por incesto. Certamente Eva era parenta próxima de Adão, mais próxima, inclusive, que irmão e irmã. Adão não disse que ela era "carne de minha carne, e osso do meu osso"? E os filhos de Adão e Eva, não tiveram de praticar o incesto, assim como Noé teve de dormir com as próprias filhas? Não existiam outras pessoas! O incesto não parece ter preocupado os reis do Egito, que sempre casavam com as irmãs...
A Marquesa: A própria idéia de incesto causa-me aversão...
O Marquês: O que não impediu de praticá-lo.
A Marquesa: Você sabe que isto não é verdade!
O Marquês: Com seus próprios filhos.
A Marquesa: Que coisa horrível de se dizer!
O Marquês: Quer me dizer que não teve seus dois filhos em sua vagina, quando eles nasceram? A não ser por cesariana, de que outra maneira poderiam eles ter vindo ao mundo?
A Marquesa: Nascimento não é incesto. Você deve estar louco!
O Marquês: Trata-se de mãe e filho. Coabitando. A não ser incesto, o que mais pode ser isto?
A Marquesa: Mas não por luxúria! Não por prazer!
O Marquês: Seria capaz de jurar?
A Marquesa: Que coisa horrorosa! Você me desgosta.
(...)
Madame de Montreuil: Mas, monsieur, e os filhos de tais momentos de luxúria? O que me diz deles? Ilegítimos! Cobertos de vergonha para o resto de suas vidas.
O Marquês: Pode-se sempre tomar cuidado para impedir concepção.
Madame: Mas isto também é pecado!
O Marquês: Tudo é pecado! Para os seus padres. Tudo. Mas responda-me a isto: se todas as relações sexuais devessem resultar em nascimento, então homens e mulheres não deveriam tocar-se uns aos outros mais que seis ou oito vezes em toda a vida! E se este fosse o desejo de Deus, Ele teria feito cinqüenta ou cem mulheres para cada homem. Pois um homem poderia facilmente manter grávidas aquele número de mulheres, durante toda sua vida concepcional.
Madame: Bárbaro! Bem que gostaria disso.
O Marquês: Por que Deus teria feito os homens tão potentes, e as mulheres tão prontas a conceber, se fosse necessário que eles se desejassem apenas uma vez em cada dois ou três anos? Nega a evidência dos fatos? Proíbe o que Deus fez tão manifesto? - Oh, sim, vejo que sim. Aviso-a - nunca terá sucesso.
Madame: Não com pessoas como o senhor. Seu devasso!
Anne (calmamente): Mas se, apesar de toda a precaução, a criança nascer, o que acontecerá então?
O Marquês: Existe sempre o aborto. Ou, se o nascimento não puder ser evitado, o recém-nascido pode ser facilmente eliminado.
Anne: Oh, não! O senhor não pode querer dizer isto. É muito cruel.
Madame (para Anne): Que espera você deste selvagem? Apenas crueldade.
O Marquês (friamente): Nego que o infanticídio seja cruel. Era permitido na Grécia e em Roma, e em todas as nações antigas. E hoje em dia, ainda é permitido em muitas partes do mundo.
Anne: O senhor não pode dizer que crianças pequenas devam ser mortas. Não pode ser tão cruel a este ponto.
O Marquês: Quem, mais do que os próprios pais, tem direito de matar uma criança?
Madame: Ninguém, senhor. Ninguém.
O Marquês: Falou Madame Juíza. E uma pobre moça, que infelizmente ficou grávida, devido a seus desejos, impostos por Deus, e tem de dar à luz em qualquer lugar, não tem o direito de enterrá-lo, ou de jogá-lo aos porcos, na primeira fazenda que passe?
Anne: Oh!
Madame: Na verdade ela não tem este direito. Deixe-me dizer-lhe que isto é assassínio! Assassinato de primeiro grau!
O Marquês: Sim, e existem leis contra isto, não existem?
Madame: Sim, existem, graças a Deus.
O Marquês: E, portanto, o Estado vai acusá-la de assassinato, condená-la e enforcá-la.
Madame: Certamente.
O Marquês: E este segundo assassinato - este assassinato pela justiça, não lhe desgosta, Madame Juíza, não é verdade? Porque é seu assassinato - seu assassinato judicial. E ninguém vai privá-la dele. E, portanto, em vez de uma criança morta, deve haver também um adulto morto? E isto faz sentido para a senhora, não faz?
Madame (gritando): Não se trata de sentido, mas sim de justiça! Justiça, senhor, se é que compreende esta palavra.
O Marquês: Compreendo-a muito bem. Justiça é sempre o direito dos fortes de fazer o que é proibido aos fracos. Assim, os pais que fizeram o filho com seus próprios corpos não podem matá-lo. Mas o Estado, vinte anos mais tarde, pode chamá-lo, pô-lo num uniforme, e mandá-lo para um campo de batalha, para ser morto, e este tipo de infanticídio - pois o que mais é a guerra senão um infanticídio em massa? A não ser a juventude -
a infantaria - a quem mais a guerra mata? E este tipo de infanticídio está certo.
Madame: Falta de patriotismo vai muito bem com o senhor! Juntamente com suas outras idéias! Como se não soubesse que o Estado tem seus deveres - seus interesses - e que deve guardar-se contra as conspirações de seus inimigos.
O Marquês: Sei muito bem. E Madame também o sabe muito bem. É sempre correto matar por nossos interesses - mas nunca por nossos prazeres ou conforto.
Madame: Ah, é isto o que o senhor quer? Matar por prazer?
O Marquês: Por que não? Devemos matar apenas para ficarmos cada vez mais ricos? E para que no fim de nossas vidas possamos dizer: vejam como sou rico, em vez de: vejam quantas alegrias eu tive?
Madame (levantando-se): Oh, isso já basta. Já basta para mim. Venha, Anne, venha!
(...)
O Marquês: Em Roma antiga, não havia nenhuma lei contra o assassinato - exceto para um grupo: os escravos. Porque liberdade sempre implica o direito de matar. Onde quer que o assassinato tenha sido proibido, significa que todos se tornaram escravos.
Madame: Tenha cuidado, senhor. Aviso-o.
O Marquês: Naturalmente. Pois se eu cometer um assassinato, a senhora seria a primeira a se alegrar. Pois então o Estado lhe daria o direito de assassinar-me! É o que deseja, não é?
Madame: O senhor foi avisado!
Anne: Certamente o senhor não defende o assassinato!
O Marquês: Você acabou de ouvir-me defendê-lo, querida irmã. É o que faz a vida tão preciosa - o fato de podermos matar. Assim como os ricos gostam de cercar-se de pobres, servindo-os e invejando-os, pois então ficam mais conscientes de riqueza. E os saudáveis nunca sentem sua saúde tão profundamente como quando estão ao lado da cama de um doente. O próprio Paraíso seria um lugar monótono, se os abençoados não pudessem ver os sofredores do Inferno.
Anne: Não!
O Marquês: Sim. Foi desta maneira que Deus nos criou: criminosos!
Anne: Pecadores, sim. Mas não criminosos.
O Marquês: Então você não estudou a raça humana. Nem sequer estudou a si própria.
Anne (desconcertada): O que quer dizer?
O Marquês: Todos têm um crime no qual meditam.
Anne: Não!
Madame: Chega! Não vê o que está fazendo a esta criança inocente?
O Marquês: Tudo o que eu disse é que todos têm um crime no qual meditam. Ora, está em Platão: a diferença entre os bons e os maus é que os bons apenas sonham com os crimes que os maus executam.
Anne (reagindo violentamente): Não quero que pense que desejo matar alguém! Não permito!
O Marquês: Não falei em matar - não sei qual o crime que você acaricia.
Anne (rompendo em lágrimas): Seu demônio!
Madame (abraçando Anne e levando-a para fora): Não precisamos ficar e ouvir tais sofismas!
Anne (para o Marquês, enquanto saía com sua mãe): É o senhor que eu desejo matar! O senhor!
O Marquês (sorrindo): Por que eu? Por que não sua mãe?
Anne: Oh!
Sade - O santo diabólico - Guy Endore - págs. 114 a 118